Chico e as fantasias.

No feriado de sete de setembro fui com Chico para Itanhaém, visitar minha família. Chico estava super animado, não parava de falar da casa dos avós, dos brinquedos, da motoca dele… Era lindo de ver.

Chico adora fantasias e por isso meus pais compraram uma pra ele e deixaram lá, pendurada na porta do armário, para que Chico pudesse encontrá-la sozinho. Quando ele entrou no quarto prestou mais atenção nos brinquedos do que em outras coisa, até que falamos pra ele virar pro armário… Eis que ele encontrou a fantasia do Hulk e imediatamente pediu pra colocar.

 

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“É minha, é minha fantasia!!!”

A alegria dele foi tanta que eu e minha mãe resolvemos presenteá-lo com outras fantasias. Compramos uma do Super-man (que ele chama de herói), uma do (da ? ) Marshal, da Patrulha Canina e uma de caveira. Entregamos uma por vez e pra cada uma ele fez uma festa.

A seguir descrevo alguns momentos que nos foram proporcionados por Chico e suas fantasias!

  1. Na quinta, nosso primeiro dia lá, meus pais saem com Chico para ele andar de motoca pelo calçadão da praia. Ele escolhe ir com a fantasia de Hulk e máscara e sai pelas ruas gritando “cuidado comigo que eu sou o Hulk! cuidado comigo que eu sou o hulk!”
  2. Domingo Chico coloca a do Super-man e simplesmente decide que iria voar e inicia uma sequência incrivelmente longa e cansativa de saltos de uma poltrona para os colchões que estavam no chão. “olha pra mim, eu sou um herói”
  3. Segunda, chegando em Recife, peço um Uber pra voltarmos pra casa. Assim que o carro chega, eu e Chico entramos… logo depois de cumprimentar o motorista Chico começa a gritar “moço, moço, moço!!!” e quando finalmente recebe atenção diz “eu sou um cachorro!” corre pra janela do carro e começa a latir para carros e motos que passam por nós!
  4. Na terça ele só aceitou ir pra escolinha se fosse com a roupa do Hulk e isso porque ele iria assustar todos os amiguinhos – palavras dele.
  5. Na quinta ele foi com a fantasia de caveira pra escolinha e fez Teixeira ir dançando e cantando o caminho todo a música das caveiras “tumba tumba tumbacalatatumba, quando o relógio bate a uma, todas as caveiras saem da tumba, tumba tumba tumbacalatatumba!”
  6. Na sexta, já com todas as fantasias sujas, Chico decide ir de moletom – no calor de Recife – pra escolinha para poder ir de Homem-Aranha.

Há quem diga que fantasias são usadas apenas uma vez. Mas pra Chico, fantasia é roupa do dia a dia. E vou dizer, ele mergulha de corpo e alma no personagem!

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Hoje a gente completa 30 semanas, o que significa que, em teoria, faltam apenas 10 semanas para conhecermos Raoni.
Chico já entende que vai ter um irmãozinho. Ele abre os presentes, guarda as roupinhas no lugar certo, da bom dia pra barriga e faz o pai também dar… Já separou um brinquedo dele pra ser de Raoni e deu o nome do irmão para o seu bebê, como ele chama o boneco que ganhou de minha mãe.
Dia desses ele me pediu pra colocar Raoni pra fora, porque ele queria brincar com o irmão.
Acho lindo ver esse irmão mais velho nascendo, ver Chico crescendo e se transformando.

30 semanas. O tempo tá voando.

#30semanas #vemRaoni

 

Família é presença.

Faz dois dias que o bom dia lá em casa é o melhor momento do dia. Teixeira não foi trabalhar cedo como sempre, então quando Chico acorda eu e Teixeira corremos pra cama e ficamos nós três lá, rindo, brincando entre beijos e abraços. Chico começa o dia com uma sonora gargalhada e não dá vontade de sair da cama.

Hoje foi especialmente gostoso.

A gente conversou com ele sobre o feriado. Eu e Chico vamos visitar meus pais, Teixeira, infelizmente vai ficar. Quando Chico ouviu que ia ver os avós logo começou a rir e pular na cama. Quando eu disse que o vovô ia esperar a gente com um monte de comidas gostosas ele falou “e eu vou sentar no meu cadeirão laranja!” (meu pai fez um cadeirão pra ele). Depois ele comemorou que ia brincar no quarto dele e ver o carrinho dele! Quando eu falei que a Tia Marina também vai estar lá ele quase teve um treco de tanta alegria!

Meus pais sempre tiveram medo – irracional – de que Chico não lembraria deles (e eu sei que o mesmo já se passou pela cabeça da minha irmã). Mas Chico demonstra diariamente que os três mil quilômetros que nos separam não fazem diferença no amor; Chico, no auge dos teus dois anos e quase 11 meses já sabe muito bem que família é presença, perto ou longe. E meus pais, desde que eu mudei pra Recife, sabem se fazer presentes em todos os momentos e das mais diversas formas. Mesmo o dinheiro estando sempre apertado, a gente da um jeito de estar junto, fisicamente, pelo menos duas vezes ao ano e isso fez e faz toda a diferença pra Chico.

 

Que venha o feriado. Que Chico beba muito desse amor.

 

Um bom feriado pra todo mundo!

 

Sobre aquele desabafo…

Na última sexta-feira eu tava mal, de verdade, e recorri ao blog pra fazer um desabafo. Acho que ele acabou ficando um pouco pesado, não tão óbvio e acabou deixando algumas pessoas preocupadas (desculpa mãe, desculpa pai). Não era minha intenção preocupar ninguém. O que eu queria era só aliviar o peso que tava me sufocando.

Eu chorei a sexta todinha. Chorei porque eu precisava. Precisava pôr pra fora, precisava aliviar o peso, limpar o coração. Se tem uma coisa que tenho aprendido com a vida é que guardar sentimentos, reprimir emoções, faz mal, muito mal. E como eu posso cuidar dos meus filhos se eu não cuidar de mim, certo? E a minha forma de colocar as coisas pra fora é chorando e escrevendo. Esse blog acabou se tornando uma válvula de escape, um jeito que entrei de entender melhor o que acontece ao meu redor e, principalmente, dentro de mim. Através do que compartilho aqui dou e recebo experiências, amor, carinho e acolhimento. E eu percebi que isso tem me feito mais forte, me deixado mais confiante, centrada e esperançosa.

Mas acho que o texto de sexta acabou ficando pessoal demais e talvez devesse ter sido escrito em um caderno, ficado guardado pra mim, não dentro de mim, mas comigo. Naquele texto eu falo de uma relação de quase oito anos, que já teve muitos altos e baixos (mais baixos, diga-se de passagem) e que mexe demais comigo.

Nessa gestação eu estou ainda mais sensível do que sou e estou quase sempre a flor da pele. Além disso, a saudade que estou da minha família, dos meus amigos e da minha terrinha tem massacrado meu coração de uma forma que chega perto de ser insuportável. Então acho que tudo foi intensificado, amplificado.

Tenho comigo muitos medos, muitas inseguranças… Essa gestação está acontecendo de uma forma completamente diferente do que eu imaginava e tem horas que fico assustada com a velocidade com que tudo está acontecendo e com medo do futuro. Mas tá tudo bem, de verdade. Eu sei que tudo isso é normal.

Tudo isso pra dizer que tá tudo bem gente. Problemas todo mundo tem, certo? E cada um lida do seu jeito. Eu preciso chorar, sentir todas as minhas dores – muitas vezes dar uma exagerada estilo novela mexicana – pra depois conseguir respirar e encontrar meus caminhos.

Esse fim de semana eu passei cercada de amor e carinho, perto daqueles que são preciosos pra mim e assim começo minha semana muito mais forte. É importante que eu diga que cada vez que eu caio, me levanto mais forte e determinada.

Obrigada pelas mensagens de carinho, pela preocupação e pela amizade.

Mas aprendi a lição e, dá próxima vez, escrevo o texto, mas guardo comigo.

Aquele desabafo básico…

Pra mim, a pior da maternidade é quando eu estouro com Chico e desconto nele todas as minhas dores, sem que ele mereça isso. Faz dois dias que isso acontece e que eu começo o meu dia me sentindo a pior pessoa do mundo. Um lixo mesmo, descartável e desprezível…

Detesto quando sou bruta com ele, quando grito, pego no colo sem carinhos e beijos e falo de forma dura. Me mata o jeito que ele me olha, o choro dele…

Ele não tem culpa. Eu me descontrolo. Respiro. Me recomponho. Peço desculpas. Ele aceita. Mas a merda já tá feita, né? Não dá pra voltar atrás e apagar…

A culpa não é de Chico. A culpa é dele – ele que eu não posso nomear por motivos de evitar a fadiga. Ele que nunca me respeitou, mas que faz parte da minha vida mesmo que eu não queira que faça. Ele, que é nocivo pra minha saúde mental e emocional. Ele, a pessoa que eu mais desprezo e que eu queria que estivesse o mais longe possível de mim e de meu filho. Porque eu sei que não é só pra mim que ele é nocivo… mas como fazer pra cortar esse vínculo?

Às vezes me pergunto onde eu tava com a cabeça quando decidi sair de São Paulo, de perto da minha família e dos meus amigos, gente que me ama, me enxerga, me entende, acolhe e, acima de tudo, me respeita, pra mudar pra um lugar onde eu não tinha nada… Em Recife não tenho família, pelo menos não do jeito que eu acho que uma família deve ser. Não fui acolhida como parte da família. Quando cheguei não tinha amigos e tive que construir do zero… Mas o que eu tinha aqui era alguém que não me suportava, que me tratava mal, que me ignorava e me desrespeitava abertamente. Mas eu não pensei em nada disso, né? Eu simplesmente vim.

Eu, que sempre me considerei durona e aprova de balas, que jurei que a opinião dos outros não me atingiria, me sentia a pior pessoa do mundo quando tava perto dele. Quantas vezes chorei e desejei voltar pra São Paulo depois de um encontro com ele? Quantas vezes me peguei questionando minhas escolhas, meus atos e palavras pra entender o que eu tinha feito de tão errado pra merecer ser tratada desse jeito? Mas é claro que nunca achei nenhuma resposta, afinal de contas, eu nunca fiz nada de errado. O que incomodava ele era justamente eu ser mulher, defender meu ponto de vista, querer ser dona do meu corpo e ter opiniões próprias. Era o meu existir que incomodava ele.

Um dia eu decidi não me colocar mais nessa posição e simplesmente passei a evitá-lo. Era possível. Mas a vida tem dessas coisas e colocam a gente em situações em que a gente tem que repensar nas decisões que foram tomadas e às vezes voltar três casas no jogo. E dessa forma voltamos a conviver. Por um tempo vinha sendo tranquilo e a presença dele até trazia certo conforto e ajuda prática no dia a dia. Mas recentemente voltamos 10 casas no jogo e hoje escrevo esse texto entre lágrimas e dedos tremendo. Tenho raiva no meu coração. raiva pelo modo como ele faz eu me sentir, raiva pelo modo como eu acabei tratando Chico por conta dele. Raiva de como me descontrolo perto dele, por causa dele. Ele não merece nem um segundo meu, mas não consigo evitar.

O que eu queria agora era que eu ou ele mudássemos de cidade. Pra bem longe. Que os encontros fossem anuais. Mas eu me decidi, não encontro mais. Nem por um segundo. Pra mim, morreu.

 

Eu vou aprender a lidar com isso de forma mais saudável, mas não por ele, por Chico. Porque meu filho não merece uma mãe descontrolada. E vou me preparar, porque lá na frente Chico vai me fazer perguntas e eu vou precisar responde-las de forma a não influenciar suas decisões – mas o que eu queria mesmo era que ele decidisse não ver mais também…

Mas eu vou melhorar, eu vou aprender. Por mim, por Chico e por Raoni, quem vem aí e vai entrar nessa salada toda. Apenas por nós três.

Os médicos que encontrei.

Tava conversando com uma amiga que mudou de pediatra recentemente e aí surgiu a ideia de escrever este texto.

Deixa eu explicar.

Ela tava com a mesma pediatra desde o nascimento da filha. Uma pediatra humanizada, que baseia sua prática nas evidências científicas. Mas por que mudar de pediatra, então? Porque a humanização não diz respeito só às práticas baseadas em evidências, mas também a um atendimento baseado em acolhimento, respeito e empatia.

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E aí, com essa conversa, eu fui lembrando dos médicos que encontrei do momento que descobri a gestação de Chico até hoje… e de tudo que passei e senti (ressalto ainda que o que passei não é nada perto do que muita mulher passa!), de como foi difícil achar um médico que me ouvisse e me respeitasse, de como eu fui – sou – privilegiada e de como a nossa medicina precisa ser humanizada, em como nossos profissionais precisam descer do pedestal e reaprender a falar com as pessoas, sem inferiorizá-las.

Então decidi revisitar os médicos que conheci ao longo destes 3 anos e como fui tratada por eles. Já aviso que não vou citar o nome dos médicos aqui listados.

♠♠

Médico 1: Obstetra. Atendia pelo plano. Foi escolhido bem aleatoriamente. Tinha acabado de descobrir que tava grávida, ainda não tinha um ginecologista em Recife… então o que eu fiz foi olhar a lista do convênio e marcar com o médico que tivesse a disponibilidade mais próxima. Quando fui na consulta eu estava com cerca de sete semanas. ela não aferiu minha pressão, não me pesou… Quando eu disse que tinha gatos ele disse que ia pedir um exame e caso desse negativo (para toxoplasmose) eu teria que pensar o que fazer com meus gatos (ou seja, me desfazer deles). Eu ainda não conhecia a humanização do parto, nem a possibilidade de parir em casa, mas sabia que não queria uma cesárea (morro de medo de agulhas, hospital e de procedimentos cirúrgicos). Quando perguntei sobre o parto normal, recebi a resposta clássica “se tudo correr bem, claro que será normal” (eu ainda não conhecia os perigos escondidos por trás desta frase) com o a seguinte informação adicional “mas corre o risco de não encontrarmos vaga pra você e você acabar dando a luz na rua”. Pronto, medo. Saímos da consulta com Teixeira me perguntando se, de repente, não era melhor a gente marcar a cesárea. Eu estava com sete semanas. Eu não queria cesárea e só queria os pedidos de exames. Saímos de lá e nunca mais voltamos.

 

Médico 2: Obstetra. Atendia pelo plano. Uma mulher. Ufa! Achei que isso era sinal de que eu seria tratada com mais atenção, empatia… Cheguei até ela através de uma amiga que já tinha se consultado com ela, mas como ginecologista. Na primeira consulta já fui logo falando sobre o parto normal “se tudo correr bem, será normal” e em segui perguntei sobre essa história de parir do lado do poste, por falta de vaga e ela logo me disse que “trabalho em dois hospitais e nunca fiquei sem conseguir uma vaga pra uma gestante, fique tranquila”. Ufa! Conseguimos. A doutora só falava comigo, Teixeira era o paizinho que só recebia oi e tchau. nenhuma pergunta, nenhuma informação, nada direcionado ao paizinho. Seguimos com ela, afinal de contas, naquele momento a gente não sabia que tava tudo errado. Aos poucos eu fui chegando no mundo da humanização. Primeiro descobri o plano de parto e as possíveis intervenções que poderiam fazer em mim e em Chico. pesquisei sobre, imprimi um plano de parto e fui discutir com ela. “Só espero até 40 semanas, posição semi-deitada, doula tudo bem.” Só isso. Cresce a desconfiança, mas tudo bem, seguimos com ela. Até que mais pra frente – mais ou menos com seis meses – soa meu alarme e decido mudar de médica. Nunca mais voltamos.

 

Médico 3: Obstetra. Particular. Quando eu comecei a flertar com a humanização encontrei com o nome dele. tentei marcar, o número tava errado e desisti. Um dia assisti ao documentário O Renascimento do Parto e tudo mudou. Fui a um encontro de gestantes e consegui referências dele e o número correto. Marquei, fomos e nos apaixonamos. Fomos recebidos com abraços, Teixeira foi tratado pelo nome e teve sua participação cobrada em todas as consultas “tá calado hoje hein Paulo? Tá sabendo tudo é? Nenhuma dúvida?!”. Falava com a gente de igual pra igual, numa linguagem simples e a consulta rolava como se fossemos amigos conversando num bar ou na sala de casa. Sempre escutando nossas dúvidas, respondendo com respeito. Eram consultas regadas a muita informação e risadas. E o melhor de tudo: ele incentivava o parto domiciliar! Dois acontecimentos me marcaram em particular: 1) um dia eu caí na rua indo pro trabalho. Já estava relativamente próxima do final da gestação, caí de joelhos, me machuquei relativamente bastante e fiquei assustada. Em casa Teixeira ligou para nosso médico para contar o que aconteceu e perguntar o que deveríamos fazer. Ele foi super atencioso, falou para eu ficar de repouso e observar os movimentos do bebê, se ele se mexesse normalmente, não teria porque me preocupar, só não fazer nenhum esforço. Pediu para que qualquer coisa ligássemos de novo. Percebi que os movimentos estavam normais, mas no dia seguinte, quando fui trabalhar, percebi que a perna direita (a que eu tinha Machucado estava inchada e dura). No dia seguinte tive consulta com ele e comentei sobre a perna. Ele passou cerca de 15 minutos avaliando minha perna, comparando a pressão sanguínea de uma perna com a outra, sentado no chão. Avaliava, mexia, cutucava… No final disse que não precisávamos nos preocupar, mas que no final do dia era pra Teixeira massagear minhas pernas para estimular a circulação e observar. 2) passei por uma consulta extremamente estressante com uma dermatologista (médica 5) e ele foi incrível no trato comigo, em me acalmar, explicar e passar um tratamento alternativo. Entrei no consultório dele péssima e ele conseguiu me deixar bem.

Não é atoa que este é o nosso médico nesta nova gestação! E se eu engravidasse mil vezes, mil vezes eu seria acompanhada por ele.

Médico 4: Obstetra. Atendia pelo plano. Indicação da esposa do meu sogro. Eu não queria ir, já tínhamos encontrado o nosso médico, alguém de confiança. Mas eles insistiram. Fomos. Conversamos um pouco e ele me pediu pra deitar na maca para me avaliar. Apalpou minha barriga e me perguntou se eu já sentia Chico mexer. Eu disse que ainda não sentia e o que ouvi foi “ainda não? mas que mãe insensível, não sente o próprio filho mexendo!”. Me senti um lixo. Levantei da maca e voltamos pra mesa dele. Decidi perguntar sobre o parto e ele foi bem sincero “99% dos meus partos são cesáreas. Pra ser parto normal comigo só se a mulher já chegar parindo no meu plantão”. Eu, sei lá por quê, decidi insistir e perguntei “se a mulher chegar parindo, você faz alguma intervenção?” (nessa época eu já estava por dentro da humanização, eu sabia o que perguntar e sabia o que queria como resposta). Mal terminei de falar e ele respondeu “eu uso todas as possíveis. não tenho tempo de esperar a mulher parir. tenho três empregos e a medicina avançou pra isso. pra que esperar?”. Minha vontade era perguntar porque então ele escolheu ser obstetra, mas só fiquei de cara fechada, braços cruzados e visivelmente insatisfeita. Pra fechar a consulta ele falou “mas eu entendi que tipo de parto você quer e sei que tem médico em Recife que faz. Melhor você procurar ele, muitas pacientes minhas fazem isso, algumas voltam, outras não. Mas espero que você consiga o parto que quer”. Saímos e, acho que nem preciso dizer, né? Nunca mais voltamos.

 

Médico 5: Dermatologista. Atendia pelo plano. Eu não sei quando foi a primeira vez, mas acho que desde uns 17 anos eu tinha verruguinhas nos meus dedos e todo início de ano eu cauterizava elas. Era um saco. Quando engravidei de Chico, acho que por conta da queda normal da imunidade que ocorre nesta fase, as verrugas se multiplicaram. Eu achava feio e tinha vergonhas delas. Eram bem visíveis e na mão direita. Já estava na reta final da gestação e decidi ir na dermatologista pra resolver isso antes de Chico nascer. Até hoje me arrependo de ter ido até lá e Teixeira se sente mal por não ter ido comigo, mas como imaginar, né? O que escutei da médica, quando ela viu minha mão, foi “26 anos e uma mão desse jeito? Você não tem vergonha, não? E ainda por cima grávida! Isso é HPV e provavelmente você passou isso pro seu filho. Ele vai nascer cheio de verrugas!”. Me segurei na frente da médica. Eu não sabia o que fazer ou falar, tudo o que eu conseguia era pensar que eu era uma mãe horrível e que, mesmo antes do filho nascer, já estava fazendo mal pra ele, antes mesmo dele estar nos meus braços eu já estava falhando! saí do consultório aos prantos, chorava de soluçar, me sentia a pior pessoa do mundo e liguei pra Teixeira. Mal consegui falar. Ele me mandou entrar num táxi e ir pra casa. Lembro de chorar muito, sentir muito medo e culpa. Naquela noite sonhei com o nascimento de Chico, quando ele vinha para os meus braços ele estava todo coberto de verrugas e era tudo minha culpa, só minha. Nunca mais voltei nela.

(curiosidade: semanas depois do parto, quando acordei para uma das mamadas noturnas, reparei que, de alguma forma, as verrugas estavam diminuindo. E elas foram diminuindo, diminuindo, diminuindo… até que sumiram e nunca mais voltaram. Chupa essa doutora!)

Médica 6: Pediatra neonatal. Particular. Indicação do médico 3. Era ela que acompanharia o parto de Chico caso o parto fosse hospitalar. A gente gostava bastante dela. Fizemos uma consulta durante o pré-natal pra discutir o plano de parto e as duas (ou três, não lembro ao certo) primeiras consultas de Chico. Ela era super carinhosa na hora de pegar ele… fazia carinho, conversava, ria… era bom ver o modo como ela tratava Chico e nos tratava! Era colhedora com nossas dúvidas e medos e me ajudou com a pega durante uma consulta. Só trocamos de pediatra porque as duas vezes que precisamos falar com ela por telefone, não tivemos resposta e nos sentimos desassistidos (ela tinha dito que poderíamos ligar para ela em caso de dúvidas e uma dessas dúvidas foi o que fazer numa febre a cima de 38°C). Mas com relação ao tratamento, não temos do reclamar. Há, a gente também tinha a intenção de encontrar uma pediatra que não fosse alopata, ou seja, uma hora nós trocaríamos de pediatra.

Médico 7: Pediatra. Homeopata. Atendia pelo plano. Todo aquele carinho que Chico recebia da pediatra anterior, o cuidado na hora de pegar, as conversas… não existiam mais. Na verdade, ela mal encostava nele. E quando encostava parecia que tava pegando num saco de batata. Quando fomos começar a introdução alimentar a gente disse que não pretendia dar suco e sim dar a fruta in natura. Ela ignorou, falou com a gente como se não soubéssemos o que estávamos fazendo – mesmo a gente apresentando dados e as fontes de onde retiramos a informação. Em toda consulta ela me perguntava quantas vezes por dia Chico mamava e quanto tempo duravam as mamadas e sempre que eu respondia “não sei, ele mama sempre que quer e pelo tempo que quer” ela me respondia a mesma coisa “Não pode ser assim mãezinha, tem que controlar, você precisa descansar senão não vai produzir leite”. E sempre perguntava do berço e quando a gente falava da cama compartilhada vinha uma conversa parecida com a da amamentação “Não pode mãezinha, ele tem que ficar na cama dele pra você poder descansar…”. Mas a gente ia levando, afinal de contas, ela era homeopata e atendia pelo plano. Mas quando voltei a viajar a trabalho as coisas mudaram um pouco e ficou difícil de ir levando. Chico começou a engatinhar e de uma consulta pra outra (um mês de diferença) ele perdeu 200g. Eu tinha feito duas ou três viagens nesse intervalo de tempo, o que totalizava 11 dias longe de Chico – mas não foram 11 dias seguidos. Ela virou pra mim “Mãezinha, você não pode ficar tanto tempo longe do seu filho. Ele precisa de você, ele ainda precisa mamar. 11 dias longe do seu filho é muito tempo. Volte daqui a 15 dias com ele e se ele não tiver recuperado esse peso a gente vai precisar dar leite artificial”. Morri. Por alguns segundos morri. Eu sabia que não era preciso, eu sabia que nada daquilo era verdade e sabia que 200g são nada, principalmente pra uma criança que começou a engatinhar, ou seja, a gastar mais energia. Mas eu tinha culpa dentro de mim, desde a primeira viagem. Me sentia péssima por me afastar do meu filho, com ele tão novo. Então as palavras dela me mataram um pouquinho, me roubaram a razão e me fizeram chorar. Pela segunda vez, alguém que tem como função me acalmar e me orientar, me fez chorar e duvidar de mim, da minha capacidade. Saímos do consultório. Eu chorando, Teixeira me consolando e me acalmando. Nunca mais voltamos.

 

Médico 8: Pediatra. Homeopata. Medicina Antroposófica. Particular. Indicação de mães que conheci nas rodas de gestantes. O consultório é todo montado pra que a criança fique livre durante a conversa com os pais. Brinquedos por todo o canto. Brinquedos de madeira, de pano, livros… Na conversa a pediatra pergunta coisas sobre a gestação, sobre a minha saúde, sobre a saúde do pai (importante dizer que ela fala diretamente com nós dois e não existe mãezinha e paizinho), sobre a nossa rotina,sobre amamentação, sobre o que a gente espera, nossos medos, dúvidas, inseguranças… Ela fala que de acordo com a medicina antroposófica a amamentação não deve prosseguir depois que a criança completar um ano, mas que se esta for a nossa decisão, ela não irá interferir, afinal de contas a escolha é nossa (ponto pra ela!). Conversa com a gente sobre as vacinas e indica as que, para ela, são as essenciais, deixando a escolha sobre dar ou não as outras em nossas mãos. Passa remédios manipulados e homeopáticos. Responde mensagem quando a gente precisa. Estamos satisfeitos e continuamos voltando.

 

Médico 9: Nutricionista. Particular. Consultório todo preparado para que crianças tenham liberdade e permitam que os pais conversem com a médica. Atenciosa e paciente pra tirar nossas dúvidas e jeito na hora de chamar nossa atenção para nossos erros. Não tem discurso de superioridade, não é grossa, pelo contrário. Muito acolhedora e empática. Entendeu nossa rotina, escutou nossos gostos, passou algumas receitas e dicas. Não voltamos mais. Não por não gostar do atendimento, mas por não ter condições de pagar a consulta sempre e por preguiça mesmo, talvez. Mas se precisar, é nela que volto e é ela que indico!

♠♠

Disso tudo me fica a certeza de que precisamos humanizar a prática médica, mas pra isso é preciso humanizar a formação dos médicos. É preciso que a medicina baseada em evidências científicas seja a medicina ensinada, é preciso que o olhar seja treinado pra enxergar a pessoa que está ali e não o problema, empatia, respeito e acolhimento precisam nortear a relação médico paciente. A informação precisa ser compartilhada e a responsabilidade da decisão deve ser dos cuidadores.

Também não posso deixar de reconhecer meu privilégio de poder contar com um plano de saúde e de ter condições de ter pagado – e ainda pagar – consultas particulares para que minha família tivesse o melhor atendimento possível.

Humanizar a medicina é também fazer com que atendimento de qualidade e com respeito deixe de ser privilégio e passe a ser direito.

O caminho é longo, mas aos poucos estamos avançando.

Bom, essa foi – e tem sido – minha experiência com médicos dentro da maternidade.

E a de vocês, como está sendo? Conta aqui pra gente!

Desacelerar.

Eu tenho uma estratégia para lidar com os conflitos de interesse que rolam com Chico, principalmente pelas manhãs, quando estou sozinha com ele, tendo que arrumar e levá-lo pra escolinha. Na verdade é muito simples: toda vez que ele pede alguma coisa, ou não quer fazer ou quer fazer diferente do que eu proponho-peço, eu penso “se ele não fizer ou fizer de outra forma, vai se prejudicar? se eu ceder pro jeito dele, vamos evitar berros e estresse antes mesmo das 8h da manhã?” se as respostas forem não e sim, pronto, é do jeito dele.

Ontem ele quis ir de motoca pra escolinha. Normalmente a gente diz pra ele levar um brinquedo que caiba na mochila, mas ontem ele queria ir de motoca, não servia outro brinquedo, era aquele. Parei pra pensar: a escolinha é perto e ele já pedala; o máximo que acontece é ele ir andando e empurrando a motoca (tá, talvez eu tivesse que carregá-la) e aí, dá próxima vez que ele pedir, eu digo não e explico o porquê. Mas ontem eu não tinha um motivo para não deixar – e essa coisa de dizer não pelo não, não me agrada.

Saímos de com ele em cima da motoca. Ele sozinho entrou e saiu do elevador, desceu o degrau do prédio e iniciou seu caminho até o portão. Eram 7h30 da manhã e ele estava feliz, radiante e orgulhoso. O percurso até a escolinha leva no máximo 15 minutos em dias normais e meu trabalho é na rua de trás – eu entro as 8h. Teoricamente estávamos com tempo de sobra.

Normalmente, levar Chico para a escolinha não é uma tarefa simples, no sentido de é só caminhar e chegar. Ele gosta de interagir com o espaço em que está inserido, gosta de descobrir o que está ao seu redor, perguntar o motivo das coisas estarem na rua… ele me mostra desde flores a cocos, se admira com a altura das árvores, vê microfones nos ferros que seguram correntes de estacionamentos e sempre pára pra fazer um show. E ontem, além disso tudo, ele estava em cima de uma motoca. Ele não pedala rápido, as calçadas em Recife são cheias de buracos e irregulares. Além disso, ele pedalava olhando pro lado, admirado com sua sombra na motoca. Ou seja, eu dava um, dois passos, e ficava parada esperando por ele, que sem pressa, seguia orgulhoso e re-descobrindo aquele caminho de todo dia.

Em um certo momento, mal tínhamos nos afastado do prédio, eu perguntei “filho, você não consegue pedalar mais rápido?!”. Ele tentou, olhou pra mim, baixou a cabeça e respondeu “não consigo mamãe”. E eu me dei conta de que consegui, com apenas uma pergunta, arrancar a alegria e o orgulho dele. Rapidamente disse “então pedala desse seu jeito filho, que tá ótimo”. E ele seguiu, pedalando, feliz. Mais pra frente, onde a calçada estava melhor, ele começou a pedalar mais rápido e dizia “olha mamãe, olha mamãe, sou eu pedalando mais rápido!!” e ria, como se tivesse conquistado o mundo.

E eu segui, no meu ritmo enlouquecedoramente lento, pensando que é isso mesmo que Chico vem me ensinando desde que ele se anunciou em meu ventre: desacelerar. A gente precisa desacelerar a vida, pra conseguir enxergar o que e quem nos cerca. Nessa rotina de levar Chico pra escolinha andando, ele fez amizades na rua, conhece os desníveis, as flores, os muros, os animais de cada canto… Mesmo caminho todo dia e ainda sim, sempre diferente aos olhos dele. Todo dia a mesma árvore enorme, o mesmo gavião na parede da casa, as mesmas flores e o mesmo degrau que ele para e sente. O mesmo microfone, onde ele canta e me faz dançar, ali, no meio da rua, com todo mundo olhando. Ele é o galego que anda pelas ruas e ganha sorrisos, que dá bom dia pro pessoa da limpeza das ruas e que me pergunta porque tem um sapato e quem o deixou ali na calçada.

Na metade do caminho tem um chapéu de sol, essa árvore que me lembra tanto Itanhaém e minha infância. Suas folhas estão caindo e semana passada forravam a calçada, pintando o cenário em tons de amarelo e vermelho. Chico ficou encantado. Suas folhas podem ser consideravelmente grandes. Uma calçada de oportunidades e descobertas sensoriais pra Chico. Ele tinha que ir pra escolinha. Eu tinha que chegar no trabalho. Mas ficamos ali por cerca de 10 minutos. Ele pegando folhas, levando de um lado pro alto, correndo em cima delas, descobrindo espinhos, terra e água. Ele não queria sair dali, não queria deixar as folhas pra trás… falei pra ele escolher uma e levar com ele. Ele escolheu uma pra ele e uma pra mim, e seguiu o caminho pra escolinha, feliz “vou mostrar pros meus amigos mamãe”. Fizemos isso por três dias, até que um dia as folhas estavam todas dentro de uma sacola e a calçada limpa. “mamãe, cadê as folhas?” “varreram e guardaram nas sacolas filho, quando elas caírem de novo, a gente brinca”. E uns dias depois as folhas estavam lá no chão de novo, caídas e molhadas da chuva. Passamos reto “mamãe, hoje não vamos pegar folhas?!” “hoje não filho, estão muito molhadas por causa da chuva, depois a gente pega, tá?” “tá bom mamãe… olha, a folha daquela árvore é verde!” e segue o caminho.

É assim todo dia, ele me ensina a desacelerar e eu, de alguma forma, ensino que tudo tem seu tempo e espaço, e ele vai entendo e construindo seu mundo.

Se tem uma parte do meu dia que eu gosto, é essa, de levar ele pra escolinha. Nós dois, juntos, descobrindo, aprendendo e construindo.

Nem sempre é fácil ficar ali, parada na calçada, esperando ele decidir que seja lá o que tenha chamado a atenção dele, não é mais assim tão interessante. Nem sempre a gente tem tempo de parar. Mas o meu grande desafio é entender que, quando há tempo pra parar, eu posso e devo parar, por mim e por ele.

Desacelerar.